10 dicas para atores e performers engrenarem o trabalho autoral

Padrão

Qual é o ator ou performer que não sonha em conceber seu próprio trabalho ? Todos que conheço.
Neste artigo separei 10 dicas essenciais que vão manter você atento para seguir em frente com sua criação autoral.

A palavra ator neste artigo significa: ator, dançarino e performer. Embora a performance tenha aspectos diferentes dos outros, neste contexto não.

1. O AMBIENTE ABANDONADO

Francis Bacon.

Ateliê de Francis Bacon.

O ambiente em que você passa o tempo criando é seu próprio retrato. É necessário que ele esteja em harmonia com a pesquisa.

Não quer dizer que precisa estar organizado. Se você está no ambiente e ele emite dezenas de sensações que ocupam sua atenção, avalie como o corpo é alterado neste lugar.

Esses exemplos que separei mostram algumas das possíveis impressões ao entrar no seu espaço de criação:

  • Esse cenário vou guardar quando mudar para um local maior.
  • Naquele canto o projeto que quando houver tempo livre vou mexer.
  • Aquela caixa é da última mudança.
  • Essa escultura é de um amigo, ele deixou guardada aqui.
  • Aqueles papéis são as contas que tenho que pagar.

Se o ambiente comunica-se com você desta maneira, o lugar precisa transformar-se.

Imagine um local que te inspire: abertura, experimento e exposição é com ele que seu espaço de criação deve se parecer.

2. SE FOSSE UM MÉDICO, EM 10 ANOS DE CARREIRA JÁ:

Money Box de Gianni Motti.

Money Box de Gianni Motti.

Este assunto você já deve ter ouvido professores, performers e toda classe artística comentar.

Quero deixar claro que  medicina e engenharia são profissões de controle com regras que regem o que é certo e o que é errado.

Arte é uma profissão de descontrole que não se estuda durantes anos mas dedica-se a vida inteira para reorganizar regras pré-definidas em uma ordem indefinida, que comunica o que nenhuma linguagem pré-definida é capaz.

No trecho a seguir, falo como os números vão te dar segurança para manter o foco na sua pesquisa.

Quanto você ganha e quanto pode gastar todo mês ? Tenha este controle, ele permite consultar suas finanças no decorrer dos dias e saber até onde você pode ir sem afetar os compromissos com o trabalho criativo.

Se o dinheiro é muito, pode virar barreira para enfrentar o vazio, se é pouco, pode virar barreira por ter de fazer projetos que consomem tempo. Mantenha um fio de ligação com a sua pesquisa criadora no cotidiano e sempre antes de tomar uma atitude veja se não vai interferir.

Saiba dizer não para uma festa, uma exposição, um espetáculo, uma viagem ou jantar fora. Permaneça e saia na hora certa.

3. AS LEIS DA CRIATIVIDADE

 Voices of the Spirit World de Kyoungil Ong.

Voices of the Spirit World de Kyoungil Ong.

Quando você vê uma obra que gosta, está em contato com a fase apresentável dela. A obra possuí leis básicas e comuns, que são:

1. Insight. O impulso criativo.

2. Ideia. E uma boa ideia representa 1% da ação criativa.

3. Diletantismo entre você e a ideia.
Sem isto a obra pode ficar fadada a um formato que você viu. Bons trabalhos levam tempo para atingir maturidade.

4. Formato.
Consequência da pesquisa, você  pode escolher se quer mantê-lo ou não.

No entanto na performance o formato sugerido pela pesquisa normalmente é mantido.

Tentar atingir o formato final da obra a partir da imaginação pode ser útil na hora de fazer um exercício. Porém formatar um trabalho que vai percorrer dezenas de apresentações é um processo delicado, imaginar o resultado final pode forçar um formato e esterilizar a criação.

A paciência necessária para criação de algo autoral é um organismo vivo que, compreende e age como trança nas interações entre imaginação e mundo físico.

A disciplina (do Latim discipulus, “aquele que aprende”) é a força motriz desta paciência viva.

4. AQUELES QUE NÃO SABEM O QUE DIZEM

Kate&Cat de Andy Prokh.

Kate&Cat de Andy Prokh.

Comente ou mostre para pessoas que não sabem do que você está falando, deixe-as opinar, ouça sem preconceitos. Considere o que faz sentido.

Buscar em direção ao vazio estabelece encontros com a memória, cruzamentos do antigo com o novo e a percepção passa a exigir que você aperfeiçoe sua técnica pessoal se quiser avançar ao desconhecido.

Na contemporaneidade o vazio é o que as pessoas temem, enquanto você se relaciona com ele um campo de atração é cultivado e naturalmente um de antipatia.

Fique atento, nem sempre a resposta esta no campo de atração.

5. MEDO DE PRODUÇÃO

"A noite dos palhaços Mudos" do La Mínima. Foto: Carlos Gueller.

“A noite dos palhaços Mudos” do La Mínima. Foto: Carlos Gueller.

Quando se fala em técnica você logo pensa na técnica corporal de dança ou interpretação. Se você está trilhando para sintetizar suas ideias e pesquisas em uma obra, a técnica não pode ser tratada somente como um vocabulário.

Na lista abaixo, o básico para você organizar sua dinâmica de trabalho:

Treinamento físico-poético: seu treinamento contínuo do desenvolvimento muscular. Não confundir com exercícios físicos para ganho de massa muscular. O ganho de massa no treinamento do ator é uma consequência.

Abastecimento:
são as referências que vão manter você aquecido para continuar sua investigação.

Habilidades:
técnicas que você precisa desenvolver para te auxiliar na criação: saber editar um vídeo, criar um mapa de luz, conhecer os recursos da sua filmadora, tocar um instrumento etc.

Produção:
Separação do material que vem sendo criado em formato de texto, imagem e vídeo. Você vai usar este material mais tarde para consultar suas pesquisas e extrair dele o necessário para gerar uma proposta comercial. Em um futuro longínquo fazer publicações das fases do seu trabalho criativo.

6. SER ATOR DO COLETIVO OU DO GRUPO

Espetáculo Triz do Grupo Corpo. Foto: Leandro Couri.

Triz do Grupo Corpo. Foto: Leandro Couri.

Passar anos em um grupo pesquisando as camadas sensíveis que o ator pode penetrar é uma experiência singular. Já se o grupo vive uma fase da indústria do entretenimento repetindo exaustivamente um formato.

O artista fica a mercê do comércio cotidiano: você vende 8 horas do seu tempo, recebe algum dinheiro e gasta em algo que permita suportar mais 8 horas daquele sistema no próximo dia.

Este mesmo processo a longo prazo vai anestesiando sua capacidade de organizar-se para agir e pensar por si mesmo.

Vício significa fazer algo que te faz mal, acreditando que está te fazendo bem.

Não tenha medo de deixar um grupo, não pense que se você sair vai abandonar quem te acolheu, o único lugar onde você é insubstituível e fundamental é na criação do seu próprio trabalho.

Se você já tem ideia do que gostaria de fazer é um ótimo momento para começar, antes que todo seu tempo livre seja preenchido com distrações.

As ideias tem data de validade, algo que você pensou 2 anos atrás, agora precisa ser reinventado para ser feito.

Ficar um longo tempo na sombra de alguém pode te deixar mal acostumado. Não ostente, mantenha sua atenção direcionada para onde você tem que ir.

7.  O QUE FALO, CONDIZ COM O QUE SOU CAPAZ DE FAZER ?

Cena do filme "O Equilibrista" de James Marsh.

Cena do filme “O Equilibrista” de James Marsh.

O significado do debate em torno do trabalho criativo é encontrar a ação condutora para experimentar em cena.

Artistas jovens e experientes acabam minando um dia todo de trabalho falando demais. O ator deve fazer o cruzamento de duas forças para apresentar ao público uma terceira.

Pesquisa teórica
Sua pesquisa culmina na pergunta-impulso.
Que coloca você literalmente para jogar na cena.


Presença ou estado
Cruzamento entre as duas forças.
Seu corpo é significado em movimento.


Pesquisa de campo
Em movimento seu corpo encontra aspectos da pesquisa que estavam ocultos ou restritos ao estudo intelectual.
Palavras ditas que se excedem são tentativas de chegar à “Pesquisa de campo” através da “Pesquisa teórica”, acabando com qualquer possibilidade poética.
Quando você encontrar a pergunta-impulso, silêncio. Vá para a cena.

8. ATENÇÃO NO LUGAR DE TENSÃO

Autor deconhecido.

Autor deconhecido.

Até a obra ser exibida para o público há um longo caminho, com dias áridos.

No texto a seguir vou falar como uma tensão cria uma âncora que impede que você se desloque:

Tensão satisfatória: É necessária para o seu trabalho físico. Exercita sua respiração, alinha sua postura e mantém sua ansiedade controlada.

Tensão insatisfatória: Sua respiração fica curta, você entra em apneia sem perceber e passa parte do dia com ombros, escápulas e mandíbula contraídos, o intestino funciona precariamente e a paciência necessária para aprender torna-se perecível.

Você submeteu a obra até a última consequência, investiu no trabalho e na apresentação, mas foi surpreendido com uma má interpretação do público ou da crítica.

Essa situação pode ser condutora de tensão insatisfatória e o problema está nas dependências que ela gera: comer em demasia ou atitudes autodestrutivas, podem parecer aliviantes, mas para o ator a maioria das suas conquistas estão no próprio corpo.

Agindo assim o artista depreda a essência do que ele necessita para se desenvolver. Quando retomar o trabalho terá uma nova tensão insatisfatória, entrando em um ciclo de insuficiência até que acredite que arte não é para você.

Todo treinamento físico-poético efetivo desenvolve uma atenção flutuante que é capaz de perceber quando uma ação vai desencadear uma tensão insatisfatória.

9. QUEM PAGA PELO MEU TRABALHO EXPERIMENTAL ?

Cristo de Rapadura de Caetano Dias. Bienal de São Paulo.

Até o trabalho atingir o status de ser financiado pelo setor público ou privado, é do seu bolso que sairão os primeiros investimentos. Isto é quase uma convenção da produção de cultura no Brasil.

A dura realidade é, uma vez que tenha conseguido recursos desses setores para fazer suas pesquisas, não significa que quando o recurso acabar você será contemplado novamente.

Portanto enquanto a obra depender exclusivamente de você, continue aperfeiçoando-a até que ela se torne apresentável, ainda que seja experimental.

Este período de erros e acertos (que não dizem respeito somente a criação) vão te deixar com os sentidos aguçados para quando conseguir, o recurso seja propulsor.

10. NÃO ADIAR OS ENSAIOS

Ensaio de Adriana Quintanilha. 2014.

Fragmento de exercício físico-poético, Adriana Quintanilha.

Fazer aulas, leituras, manter-se atento com as finanças e o corpo físico-poético em desenvolvimento.
São esses os instrumentos que você vai usar para perceber os signos do seu mapa pessoal de criação.

Alguns se apaixonam e só querem fazer cursos. Outros se interessam em reuniões para debater sobre as direções da arte. Isto tem contribuído para uma geração de novos críticos e autores.

Para o ator que quer estar em cena, pesquisa teórica e debate fornecem a direção para onde ir. A locomoção de onde você está até onde quer chegar, é feita através do ensaio.

Chegamos ao fim deste artigo e eu adoraria saber o que você achou. Deixe um comentário logo abaixo.

Adriana

Sobre

Adriana é fundador da VoadorA Teatro. É atriz e cineasta formada pela FAAP. Levou o trabalho da VoadorA para mais 5 estados em parceria com o SESC e está em fase de finalização do seu solo Doma. Ministra o curso de Teatro Autoral, pesquisa da cia. para criação de Solos na Oficina MetaCultural em SP. Saber mais.